Francisca Leão & Tony de Mello

Ambos com um feitio do camandro, gostamos de gin e de um belo maduro tinto (embora um dos seres não o tolere minimamente), gostamos de ler o Público e o seu Inimigo, gostamos de sexo (só do bom), gostamos de bolas de berlim, gostamos de cochichar e dizer mal, o Tony gosta de desporto e do azul, a Xica de preguiçar e do vermelho.

Tuesday, July 26, 2011

Diz-me o que fumas, dir-te-ei em que fase de desenvolvimento emperraste.


A semana passada, e após prolongada troca de e-mails, sms, e FBpm, encontrei-me com uma amiga dos tempos de faculdade. Ia a caminho do Palácio de Cristal - local criteriosamente seleccionado para o encontro - quando percebi que já lá iam quase dez anos. Muito tempo. É curioso como, por vezes, a vida com o nosso contributo, ou nós, com o contributo das circunstâncias da vida, desentrelaça(mos) percursos.
Eu e a Joana conhecemo-nos nos primeiros dias de faculdade, e não mais nos afastámos ao longo de todo o percurso. Partilhámos casa quando ambas decidimos ter essa experiência da vida estudantil. Foram muitas noitadas. Muitas directas para entregar trabalhos. Muitos exames feitos em parceria estratégica. Muitas confidências. Muitas dores de barriga de tanto rir. E algumas lágrimas, claro.
A doce vidinha de estudante termina, e os nossos primeiros passos no mundo do trabalho de verdade foram dados lado a lado. Entretanto, cada uma se embrenhou no seu percurso profissional, e os contactos foram escasseando e tomando a forma de promessas de reencontro. Com isto, já lá vão quase dez anos. (Minto. Voltei a vê-la e a abraçá-la quando o telemóvel me gelou o sangue e nos encontrámos na merda de um funeral de alguém que ambas estimávamos muito. Mas agoroa quero omitir essa parte.)
Chegadinha à esplanada, constato que ambas preservámos o bom hábito de nunca ser pontuais nos nossos encontros. Assim, nunca nenhuma ficou muito tempo à espera da outra. E assim foi. Quarenta e cinco minutos depois da hora marcada.
Há paixões e empatias que são para sempre. Sente-se e transmite-se o mesmo carinho. A mesma confiança. As mesmas confidências. Os mesmos risos. Tão bom.
Duas horas a recuperar o tempo perdido, a resumir o que tinha sido a nossa vida, a partilhar angústias e alegrias de momento, a pedir o sábio parecer da outra (na medida do possível, pois continuo a ser a mesma "eu é que faço, eu é que sei" de sempre). Quem nos conhece, conhece-nos sempre.
E ela com o mesmo sorriso, com as mesmas inseguranças, com a mesma mania das dietas e das gorduras (a minha linha sempre agradeceu poder comer 75% da sobremesa dela), com o mesmo jeito de mexer no cabelo, com o mesmo trejeito no lábio quando fala dos avós.
E há aquele momento em que continuas ali, na conversa, e, simultaneamente, parece que sais do teu corpo e estás a asssitir à cena de fora, ali sentadinha no ramo daquela árvore bem juntinho ao recanto que acolhia
tudo isto.
É só então que reparo que eu fumava os meus Davidoff Gold, ela continuava a fumar os mesmo slims com que nos iniciáramos já no terceiro ou quarto ano de curso (sim, há quem comece a fumar aos 20 anos. poupemo-nos a comentários.). Assim como continua a colaborar com a tuna da faculdade. E a frequentar o bar da faculdade socialmente. E a morar com os pais, sem nunca ter ido para muito longe.
Foi aí que percebi, novamente, que o tempo é diferente e dez anos não são apenas dez anos e os mesmo dez anos. Senti nela a mesma menina que ambas éramos quando nos abraçámos em lágrimas no dia em que saiu a nossa última nota. Não digo isto com qualquer laivo de criticismo, que fique bem claro.
É recorrente eu sentir que sou tão mais velha que as pessoas da minha idade. Em tudo (excepto nas mamas, que continuam empinadinhas e rijas, como deve de ser e continuarão!). Posso continuar a ser uma pessoa ingénua, mas a minha inocência perdeu-se aí algures. E com ela, parte da paciência.
Sinto na minha paz e independência que amadureci.
Mas, quando saio de mim e me começo a ouvir de fora, há alturas em que me pergunto se não terei avinagrado.
Estas questões surgem raramente, é verdade. Vivo de momentos e de afectos. Tentando manter sempre os pés bem assentes no chão e os olhos bem abertos, não vão as minhas convicções fazer de mim uma ilha.
Tudo isto, a propósito de dois maços de cigarros.

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